sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O primeiro gole que o diga


Que me perdoe Calderón de la Barca
mas a vida é porre.

Só através de minhas experiências etílicas 
me encontrei verdadeiramente comigo mesmo
e nada mais importou depois do meu primeiro gole.

Pode parecer absurdo
eu sei e concordo
mas que posso fazer se não consigo largar
essa maldita vida
que me assombra como um fantasma?

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A selva grita na minha cara e eu reajo

AC/DC entra janela adentro da minha casa gritando
AAAAAACCCCCCOOOOOORRRRRRDDDDDDAAAAAAA!!!!!!
Eu quase caio da cama apavorado
o que é que está acontecendo, pelo amor de Deus?
No meio da rua uma parada estudantil
reivindicando pela milionésima primeira vez
algum direito constitucional que eles têm
e que mais uma vez não está sendo cumprido pelo Estado.
Que jeito!
Depois que eu levanto não durmo mais.
O café está frio (minha mãe acordou cedo de novo)
as roupas que ela prometeu passar estão em cima da tábua
entro no chuveiro a água gelada martelando os ossos então calmos do sono
pego outra roupa não aquela que eu queria vestir
abro a bolsa em cima da mesa da sala pra ver se os documentos estão dentro
se não está faltando nada
não está
procuro a chave pela casa toda
toda vez que eu chego da farra com os amigos
esqueço onde coloquei a chave
ah! olha lá ela em cima da tv
a porta já estava aberta
minha mãe é foda
ela sabe que essa área aqui é barra pesada
que tem que deixar a porta trancada, mas não...
desço sozinho no elevador
só eu e o maldito barulho da porta batendo
que eu já pedi mais de mil vezes pro porteiro chamar a manutenção e nada
na rua são abraçado por manifestantes
que me prendem bottons me dão beijos abraços panfletos o pacote revolução completo
consigo me desvencilhar deles e entrar no ônibus
pareço até um atleta olímpico disputando salto em distância
o motorista olha pra minha cara, ri e diz:
"essa juventude é fogo"
eu não respondo nada e vou pro fundo do ônibus
55 minutos depois (graças ao congestinamento)
chego à agência publicitária para vender a minha ideia para os clientes
(leia-se: um bando de engravatados arrogantes que detém a única coisa que eu não tenho)
O que é que eu não tenho? dinheiro, lógico!
a reunião é uma merda
ninguém gostou de nada
pediram mudanças em praticamente 80% do projeto
e a secretária ainda teve a petulância
de me chamar de inconclusivo
o que significa exatamente isso?
Termina o expediente depois de intermináveis oito horas
que mais parecem dezesseis
choppinho cai bem
e choppinho é no bar do Demétrius
e onde tem Demétrius tem bate-papo sobre tudo: política, futebol, mulheres, história em quadrinhos
Demétrius é a versão carioca de Zorba, o grego
opina sobre tudo critica tudo puxa o saco do que interessa a ele e ponto final
e eu: só ouvindo
depois de mais de duas horas de um almanaque de críticas e piadinhas as mais diversas
eu puxo o carro e começa a segunda parte da missão: encarar o trânsito
acredita que a manifestação ainda tá rolando?
gente puta da vida reclamando que não vê a hora de chegar em casa
"esses estudantes são um saco! por que não vão pra casa chatear os pais deles?"
a pergunta acima é de uma pobre senhora que trabalha numa funerária (trabalho dos mais ingratos)
e todo dia se questiona se a sua vida pode ficar pior do que já é
eu apenas balanço a cabeça concordando com tudo
nessas horas eu só concordo com tudo
o meu cansaço não permite muito mais do que isso
enfim, casa
enfim, casa?
é ruim, hein?
polícia na portaria do meu prédio
uma mulher do 11º andar se suicidou depois de discutir com o marido
diz a vizinha debaixo dela que ouviu a gritaria toda e que a mulher desconfiava que ele tinha uma amante
era só o que faltava!
eu doido por um banho
justo hoje que tem aquele filme do G.I.Joe na tv a cabo
e agora essa
os policiais querem interrogar todo mundo
não sei pra quê não é suicídio?
eles tão achando que são quem: os agentes do C.S.I?
não teve jeito
eles não quiseram saber que eu passei o dia todo na rua
me inundaram com todo tipo de perguntas babacas sobre uma mulher que eu nem conhecia direito
pra dizer a verdade só vi a tal moradora duas vezes em todo o tempo que ela morou aqui no prédio
uma vez de canga indo pra praia
a outra com uma amiga, acho que era colega de trabalho
e não era uma mulher especialmente bonita
e tinha uma cara de mulher arrogante!
depois de mais uma hora interminável
(não sei o que demorou mais: o interrogatório ou o expediente no trabalho?)
os policiais me liberaram e eu subi correndo pelas escadas mesmo
antes que eles viessem me importunar com mais alguma coisa
ainda tive que lutar com a minha chave que cismou de prender na fechadura
ou seja: mais 15 preciosos minutos perdidos
o dia hoje foi uma merda
nem bem entro em casa telefone toca
meu pai
a velha voz de preocupação que eu já conheço de cor e salteado
"o que é que está acontecendo aí no seu prédio?"
"nada"
"como assim, nada?"
"nada, ora"
"ligaram aqui pra casa dizendo que uma mulher se suicidou"
"eu não a conhecia, pai. era uma moradora. só isso"
"só isso?"
eu apresso o rumo da conversa senão meu banho não sai hoje
mas ele diz que a conversa ainda não está terminada
tá, tá e fone no gancho e eu entrando no banheiro já sem roupa
a campainha toca eu todo ensaboado
vontade de gritar: VAI SE FODER!!!
não falo nada
a pessoa desiste
deixo o banho demorar o tempo necessário para que eu esqueça o dia de hoje
48 minutos foram suficientes
(é, eu cronometrei)
ponho o pijama ligo a tv esquento a comida
esqueci que é sexta-feira
minha mãe está no bingo
obrigado, senhor
paz
é tudo o que eu queria nesse fim de dia
perdi o início do G.I.Joe
maldita suicida!
o resto da noite você já sabe como foi:
o mesmo saco de sempre
nenhuma mulher carente apareceu batendo na minha porta
(a não ser que tenha sido aquela quando eu estava no banho)
nada de novo
tudo mais do mesmo

E pior:
amanhã tem mais (porque sábado eu também trabalho)
segunda tem mais
terça idem
e quarta também
e o resto você também já sabe

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Comigo é assim: na lata



Matei minha mulher porque ela me traiu e não foi uma vez só não. Foram várias. Me traiu até com outras mulheres. Matei minha mulher porque eu estava afim e pronto. Ninguém tem nada a ver com isso. Era MINHA mulher, entenderam? Aposto que se fosse a mulher de vocês fariam o mesmo. Então vê se não enche! Não bastasse todo o sofrimento que eu passei, ainda por cima ter que ouvir conversinha de moralista babaca. Não ferra, meu! Sô da periferia, tá ligado? Se não tá então cai fora que eu num tô com tempo pra aturar comédia, viu Vai! Chispa...

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Escrita difícil

Por que é tão difícil 
escrever um poema?
Por que é tão difícil 
encontrar palavras 
onde elas parecem 
à primeira vista 
não existir 
e ainda assim 
continuar procurando-as 
alucinadamente?
Essa tem sido 
a minha vida 
nos últimos anos 
onde eu inicialmente 
havia desistido de tudo 
havia desencantado 
da própria vida.
E ela a vida 
tem a sua culpa 
nesse processo 
pois não fez por onde 
não quis que eu 
me aproximasse dela 
não quis que eu 
a curtisse. 
Ela simplesmente 
transformou tudo 
(leia-se: a minha rotina) 
num jogo chato 
de cartas marcadas 
onde o próprio vencedor 
não tem muito 
o que comemorar. 
Foi então que as palavras 
decidiram entrar 
(quer dizer, fugir) 
da minha vida. 
E eu as perseguindo 
como um cão sem dono 
cão louco 
raivoso 
a uivar para a lua 
e a constelação de Órion
como um ensandecido.
E elas fugindo 
e fugindo 
e fugindo 
perversas 
diabólicas
intensas 
eróticas 
mundanas 
irascíveis 
as palavras.
Por que elas são assim 
tão engimáticas 
tão travessas? 
Por que brincam comigo 
desse jeito 
sem jeito 
esculhambando tudo 
pondo qualquer sentido 
de ponta-cabeça?
Por que são sacanas?
Por que me fazem de bobo 
e mesmo assim as quero 
como nunca quis nada 
em toda a minha vida? 
É... 
Eu devo ter enlouquecido 
de vez. 
É isso. 
Só pode ser isso. 
Será que um dia 
eu chego ao final 
dessa estrada sinuosa? 
Será que um dia 
terei algo para contar 
aos meus filhos e netos? 
Será que um dia 
terei filhos e netos? 
Ou será que 
já é tarde demais? 
Palavras 
perguntas 
tantas palavras 
tantas perguntas 
tudo em excesso 
menos as respostas. 
Onde elas estão? 
Existem respostas? 
Servem para alguma coisa 
as respostas? 
Quando eu descobrir 
eu volto aqui 
e termino essa loucura 
que eu mesmo comecei 
de brincadeira 
e acabou virando 
coisa séria 
contra a minha vontade.

domingo, 15 de setembro de 2013

Quando o tempo expira


[Quarto de hospital. 11:35 da noite]

Por que? Só queria saber o porquê
Não me sobraram muitas opções
mesmo assim, cara... Não acha que...?
Que foi um exagero da minha parte?
É...
Não. Quer saber? Você não faz ideia...
Ideia do quê?
Do quanto é difícil
Como assim, difícil?
Do quanto é difícil continuar tentando
Mas não é isso que as pessoas fazem? Continuam tentando?
Nem todas
Você, por exemplo?
Eu, por exemplo. Eu cansei, cara
Mas ainda é tão novo. Tem apenas...
A idade nessas horas é o que menos importa
Não concordo com o seu argumento
Isso é com você. Mas trata-se da minha vida
Eu sei, eu sei... Mas é que parece... Sei lá...
Vazio?
É... Vazio.
É exatamente como eu me sinto por dentro: vazio
Então quer dizer que é isso? Acabou?
Se você vier com esse papo de segunda chance, a conversa acaba aqui
Qual o seu problema com segundas chances?
Não acredito nelas. Nunca acreditei
Tem a ver com a morte do seu pai? É isso?
Você que está dizendo...
É isso, não é?
Você que está...
Meu Deus! Cara, já faz o quê? Cinco anos?
E meio. Cinco anos e meio
Mesmo que fossem cinquenta, eu não entendo
Eu sei. Na verdade, ninguém me entende mesmo
Porque você não quer ser entendido
Porque faz parte do meu charme pessoal
Charme pessoal? É assim que você está chamando agora?
Por enquanto
Você é uma figura mesmo, sabia?
Obrigado
Isso não foi um elogio
Pra mim foi
Você é realmente um cara estranho, sabia?
Sim, eu sempre soube disso
E você tinha tudo: uma carreira, Natalie
Não começa!
O quê?
Com esse papo de Natalie
Como assim? Ela gostava de você
Se gostasse mesmo não teria ido pra cama com você-sabe-quem
Aquilo foi uma infelicidade, Joe!
Não foi não e você sabe
Claro que foi
Não. Infelicidade foi eu ter contraído gonorreia depois
Se usasse preservativo...
Olha, essa conversa não me interessa mais!
Você ainda a tem visto?
Não. A última vez foi há dois anos. Ela está casada, Tem uma filha
Ela seguiu em frente e...
E eu não. Já sei
Não era isso que eu ia dizer
Era sim
Tá bom, mas...
Não tem mas. Era isso. Ponto, E você está certo
Admitindo? Você? Isso é novidade
É porque eu estou cansado, Carlton
Cansado de quê?
Cansado de fingir
Fingir?
É... Fingir. Que sou outras pessoas
Que outras pessoas? 
Pessoas bem sucedidas. Pintores, escritores... Pessoas
Mas você é um artis...
EU FUI UM ARTISTA. Passado
Até quando vai ficar se enganando dessa maneira?
Foi o que me sobrou: a mentira curta e grossa
Não é verdade
É verdade
Não, não é
Você só está aqui pra levantar o meu moral porque é meu amigo
E sempre serei.
Só que agora é tarde, cara
Não é tarde nada
Você não é desses que desiste assim fácil
Fácil? E quem falou que é fácil?
????
Tô levando porrada sem parar há uma década
A vida é uma guerra, Joe
E eu tô cansado de nadar nadar e morrer na praia
Triste ouvir isso
Sinto muito, mas é como eu me sinto atualmente
Não há nada que eu possa fazer?
Não
É sua decisão final?
É
Só me resta ir embora?
E esperar que na próxima encarnação eu dê certo
Acreditando em outras vidas agora?
Não. É justamente essa a questão
Agora é aquela hora em que eu...
Que você diz tchau eu respondo e você bate a porta
Vou só bater a porta, pode ser?
E chama o enfermeiro depois que sair

(10 minutos depois Joe estava morto. Deixou seus órgãos para uma família de artistas circenses e uma menina de 13 anos que precisava de um par de rins novos. Não deixou família nem fortuna. Natalie apareceu uma semana depois dizendo-se arrependida, mas era tarde demais).

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Break up

"...mas você disse na época que me amava."

Foi o que eu ouvi
de tudo o que você disse
e não me lembro mais
do resto da frase.

E lembro também
do que eu respondi de imediato:

"Às vezes a gente se apaixona pela pessoa errada." 

Vi as lágrimas
escaparem de seus olhos
você me deu as costas
e partiu.

E eu nunca mais a vi.

E não me arrependo disso.

Às vezes precisamos aprender
(nem que seja na marra)
a terminar o que começamos
de forma errada.

E aquele namoro
foi um erro desde o início.

Estávamos tão obcecados
com a presença um do outro
que esquecemos de nós mesmos.

E isso é muito grave.

Eu queria
poder olhar pra trás
e dizer que foi tudo bem
que foi uma grande lição
que valeu como aprendizado.

Mas não foi bem assim que aconteceu.

Na verdade
analisando friamente
acredito que foi uma das piores decisões
que tomei em toda a minha vida.

E certamente eu mudaria tudo.

Não vou vestir
aquela máscara hipócrita do
"faria tudo de novo"
porque no final das contas
eu "erraria tudo de novo".

Estava predestinado a dar errado.

Eu sabia
você sabia
e mesmo assim seguimos em frente
acreditando que um milagre nos salvaria
da tristeza e da rotina infeliz.

Nós queríamos
(essa é a questão)
e quando se quer muito alguma coisa
normalmente não se enxerga
mais nada ao redor.

Esse foi o nosso pecado capital:
nos esquecemos de olhar ao redor.

Nos esquecemos do mais importante:
que não éramos apenas um casal
éramos também duas pessoas
com vidas separadas
problemas individuais
obstáculos a serem ultrapassados
objetivos a serem alcançados.

E varremos isso
pra debaixo do tapete
como se fosse simples
pronto!
está resolvido o problema.

Não, não estava.

Tanto que acabou
e agora parece
que não conseguimos seguir
com nossos caminhos.

Mas precisamos.

Mesmo que a contragosto.

Mesmo que tudo pareça
um elo perdido.

Chegamos naquele ponto
em que nossos pais nos diziam
para levantarmos a cabeça
e recomeçar do zero.

O problema é:
ninguém gosta de recomeçar.

Achamos que recomeçar
é admitir uma derrota.

E esse é mais um erro grave
de nossa parte.

Desejo toda felicidade do mundo pra você
e espero que encontre o que está procurando.

Porque acredite:
eu pretendo encontrar
o que eu estou procurando
há muito tempo.

Um grande beijo
daquele que não conseguiu realmente lhe entender
mas de alguma forma mesmo que louca te ama.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O melhor emprego do mundo

Eu já quis ser astronauta, cineasta, jogador de basquete da NBA, repórter investigativo, cientista político, detetive particular, promotor de eventos, leão-de-chácara em boate furreca de beira de estrada, agenciador de garotas de programa, relações públicas, adestrador de cavalos, banqueiro, mafioso, até mesmo Senador da República. Mas de tudo que eu já quis ser na minha vida nada foi mais contundente do que o desejo de ser o cara que faz o teste do sofá em Hollywood. Não é sacanagem, não. Imagine você ser o responsável por lançar beldades como a Sharon Stone, a Megan Fox, a Kate Winslet. E o mais importante de tudo: um trabalho que não exige a menor inteligência ou formação acadêmica do que quer que seja. Basta conhecer as pessoas certas e bang! você está com tudo. Ainda fico me perguntando se irá acontecer. Sempre fui muito sonhador nesse sentido e não custa nada acreditar. É de graça. Sei que meus colegas me chamam de maluco, dizem que eu tenho que cair na real, que isso não é saudável, mas... Não adianta! Sonho é sonho. Além do mais, trabalhar como operário numa siderúrgica faz com que a gente pense em qualquer coisa melhor. Acham que eu quero morrer trancafiado nessa empresa, aspirando esse cheiro forte até cair duro e me varrerem pra debaixo do tapete como fazem com todo maldito funcionário que trabalhou por aqui nas últimas quatro décadas? Nem pensar. Sofa Test interviewer, please! Deve ser esse o nome do cargo (se tiver um nome para esse cargo). Já ouvi dizer que alguns galãs do cinema começaram fazendo teste do sofá. São gays e posam de hetero nos filmes. Mas uma vez fui chamado de maluco, mas isso é inveja da concorrência. Eles não tem o meu "talento" e eu também não vou contar pra ninguém quantos centímetros tem porque isso só interessa as atrizes que participarão dos testes. Ficou claro? Parem de insistir! Preciso descobrir um endereço para mandar o meu currículo. Não aguento mais outra semana nesse corre-corre, esse trabalho desgraçado que não vai me levar a lugar algum. Em que site eu vi aquelas P.O Boxs hollywoodianas contratando gente mesmo?

domingo, 1 de setembro de 2013

Minha viagem pelo mundo

De tudo o que vi
senti
aproveitei
repeti
observei
enquanto estive por aí
zanzando pelo mundo
o que eu posso dizer
é:

Africanos são simpáticos
Americanos são dissimulados
Argentinos não levam desaforo pra casa
Austríacos são grossos (ou talvez seja apenas o jeito de falar)
Birmaneses são furiosos
Bolivianos estão sempre ou chapados ou resmungando
Camaronenses gostam de um futebol e uma festa
Canadenses são esnobes
Chechenos gostam mesmo é de guerrear
Chilenos são nostálgicos
Colombianos são enérgicos
Coreanos falam rápido demais (se você gosta de um bom papo, não vai curtí-los)
Dinamarqueses são elegantes
Espanhóis são calientes, provocadores, sedutores ao extremo
Franceses tem um odor peculiar (e até agora eu não descobri se isso é bom ou mal)
Holandeses são voyeurs
Húngaros falam difícil (também com uma língua daquelas)
Iranianos são um povo difícil de entender
Irlandeses são beberrões
Japoneses são cínicos e gostam de confundir as outras pessoas
Mexicanos são competitivos demais
Nigerianos são alegres toda vida (mas quando brigam, sai de baixo)
Paquistaneses são criadores de caso
Paraguaios são verdadeiros até demais (apesar da má fama)
Portugueses são contraditórios
Romenos são esquisito e meio indecifráveis
Russos são frios, glaciais, econômicos
Suiços são glamourosos
Venezianos são brilhantes, joviais e sedutores

E eu que pensava
que só a gente
que tinha fama de alguma coisa.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Noé


(Praça da república. Dez horas da manhã)

- Você tinha que tocar nesse assunto, não é mesmo?

- Tá falando do quê?

- Da droga do Noé.

- O que é que tem o...?

- Como assim o que é que tem? E você ainda pergunta? Esse cara foi o maior pilantra da história da humanidade.

- Como assim?

- Todo mundo chama esse infeliz de sábio, de humilde, que ele era humano até a raiz do cabelo, no entanto o que foi que ele construiu de bom?

- Ué, ele fez a arca, previu o dilúvio e...

- Não, meu caro, nada disso. Ele foi egoísta e praticou o primeiro nepotismo descarado da história mundial.

- O primeiro...? Como é que é?

- É isso mesmo que você ouviu. Muito malandro o senhor Noé. Levou um par de cada animal e a família dele próprio como única representante da classe humano.

- Mas...

- Não tem mais nem menos, Jonas! Grandesíssimo filho da puta o Nóe.

- Você não entende! Já imaginou ter que levar toda a humanidade dentro da barca. Imagine o tamanho que teria essa embarcação e quantos anos levaria para ficar pronta?

- Não me interessa.

- Ah muito cômodo pra você dizer isso, Abreu.

- Cômodo porra nenhuma. Então não levasse ninguém. Ou deixasse os animais.

- Quer dizer que os animais que se danem!

- Prefere a sua vida a de um camelo, uma águia, um porco? Fique à vontade. Eu não, meu amigo.

- Você é um brincalhão, Abreu!

- Eu? Um brincalhão?

- É

- É isso que eu não aceito nessas teorias de apocalipse...

- O quê?

- Essa mania de sempre ter de sobreviver alguém pra contar a história. Que nem aqueles filmes cínicos daquele diretor hollywoodiano... como é o nome dele mesmo? O Emmerit sei-lá-das-quantas?

- O Roland Emmerich?

- Esse cara aí. Ele já cria a hipótese dos sobreviventes recomeçarem tudo do zero antes mesmo de escrever o restante do roteiro. Um brincalhão esse cara!

- O cara quer passar uma imagem positiva, de esperança...

- O cacete. Ele quer é promover a hipocrisia. Fim do mundo é fim do mundo, Jonas. Pra mim, pra você, nossas esposas, nossos filhos, o dono do bar na esquina da sua casa, o leiteiro, o padeiro, o advogado corrupto que roubou dinheiro público, até pra sua amante latina.

- Ei, que papo é esse de amante latina?

- Ah não ferra, Jonas. Vai querer enganar a mim? Você sabe do que eu tô falando. Aquela morena com quem você estava no La Mole na última sexta-feira. de vestido preto, maravilhosa, tatuagem de borboleta no ombro. Você sabe!

- Merda! Como é que você sabe disso?

- Também. Fica dando mole. Jonas, aprende uma coisa: mulher sobressalente você leva pra lugares diferentes de onde leva sua mulher e filhos. Amante, meu amigo, custa grana. Por isso que a minha última tem mais de oito anos.

- E eu pensando que estava sendo discreto...

- Esquece isso agora, eu tava falando da porcaria do fim do mundo, lembra?

- Cara, isso é uma questão de ponto de vista. Você tem o seu e eu...

- E você é um demagogo igual a torcida do flamengo e adjacências.

- Ô não vem ofender, não!

- É isso mesmo que você ouviu. Todo mundo quer é se dar bem, se salvar e o resto do mundo que se dane. Tá pensando que eu não manjo qual é a dessa hipocrisia.

- Olha, Abreu, vou indo nessa antes que eu feche a mão na tua cara.

(Jonas parte indignado)

- Ah seu pilantra. Vai mesmo, seu idiota! Você é igual a todo mundo: não gosta de ouvir a verdade. Corre mesmo, Zé Mané, e abre o olho com aquela morena pra não tomar um toco, seu babaca.

(Abreu continou falando sozinho na praça por mais meia hora, até que um casal de guardas municipais o levou para um abrigo de indigentes. Ele está lá até agora tentando provar que não é maluco nem um sem eira nem beira. Ainda não conseguiu convencer o administrador do abrigo).

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Bate-boca


Tá de sacanagem com a minha cara?
Não
Tá sim!
Não tô
Ah tá
Não tô
se eu tô te falando que tá é porque...
Já falei que não tô
Vai dizer que não tá me sacaneando?

Vai o quê?
Dizer que não tô te sacaneando
Mas tá
Não tô

Não tô
Vai dizer que não dormiu com aquela mulher?

Mas te viram...
É mentira!
E se fosse o contrário?
Do jeito que você é...
Como assim do jeito que eu sou?
Você é muito estressada e relapsa
Tá dizendo o quê com isso?
O que eu acabei de dizer
Tá dizendo que eu traio você?
Não com essas palavras
E o que tá dizendo então?
Que se alguém fosse trair aqui...
Hã?
Seria você
COMO É QUE É?!?!
Pois é
Seu filho da puta!
Ô não xinga, não
Xingo sim
Eu não te xinguei até agora
Mas você merece, canalha!
Vai se danar
Vai você
Não, vai você
Não, vai você
Seu pilantra!
Sua piranha!
Piranha é a mãe
Pilantra é o teu pai
Não põe o meu pai no meio, não
Foi você que começou
Não foi, não
Foi sim
Não foi
Foi

(A discussão continou
até as duas da manhã
eles foram dormir
e quando acordaram hoje
às nove em ponto
continuaram do ponto
onde pararam
e estão lá
até agora).

domingo, 18 de agosto de 2013

Heloísa encrenca

Eu sabia que Heloísa seria problema desde o primeiro minuto em que a vi dançando em cima daquela mesa na boate. Ela era o exemplo vivo e encarnado da luxúria e, onde quer que passasse, atraía para si a atenção de todos. Mas de nada adiantou. Quando o coração bate mais forte, já viu! Eu tive que ir me apresentar a ela - bem, na verdade, a amiga dela, Helena, que adiantou o meu lado e devo isso a ela, confesso, até hoje -, contar um repertório sem fim de piadinhas sem graça e cantadas idem, até conseguir o número do seu celular para, então, travar uma nova luta: quando ligar? O que dizer? Estarei sendo repetitivo? Pareço estar desesperado ou encalhado demais? E, quando finalmente, conseguir marcar o primeiro encontro, descobrir que ela é uma pessoa mais simples do que você pensava e você já tinha se preparado para toda a sofisticação possível, mas ela só quer ir ao cinema.

Dois meses de namoro depois, seis transas depois (sim, eu contei), festas, baladas, um mundo de raves depois. E começa o maior problema de todo relacionamento que se preze: você começa a saber demais sobre a outra pessoa. E saber demais sobre Heloísa foi justamente o que me destruiu.

Os ex-namorados que ligavam pra ela em telefonemas maliciosos, as amigas antipáticas que queriam saber tudo sobre o nosso namoro, principalmente como eu era na cama, se valia a pena, se era hora dela dar um toco em mim, dar um tempo, me valorizar mais, os pais de Heloísa, o coronel linha-dura J. Soares e sua mulher esquizofrênica, Mathilde, fazendo todo tipo de comentários negativos. Seu maior desejo: que terminássemos para que ela pudesse arranjar um casamento entre Heloísa e Augusto, o primo almofadinha, mas cheio da grana, filho de pais empresários.

E depois disso tudo, você ainda conhece outras garotas na farra, aquela que passa de shortinho quando você está jogando pelada no aterro do flamengo, ou a da fila do cinema que piscou pra você, ou a do show do Casuarina no Circo Voador, que te deu a maior bola, mas como estava acompanhado não podia tomar nenhuma atitude. E, no fim das contas, quando você anota na sua calculadora mental quantas foram, se dá conta que é hora de dar no pé.

E você, simplesmente, dá no pé.

Adeus, Heloísa, foi um prazer e coisa e tal, mas tá na hora de cada um tomar o seu rumo, não vai dar certo, não vai passar disso, etc, etc, etc...

E aí vem o xeque-mate: fica sabendo que ela já saía com um outro cara além de mim e não tinha o menor  interesse em me contar. Sacanagem.

Resultado: Vocês acham que eu fiz isso? Terminei o namoro da maneira oficial?

Nada.

Eu simplesmente sumi. Outro dia desses a vi saindo de um teatro na Gávea e me escondi atrás de um  caminhão que estava estacionado na rua. Graças a Deus, ela não me viu! Se bem conheço ela, ia ser um quiproquó dos diabos.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

É tarde demais


Já é tarde demais
para mim.
Tarde demais
para promessas vazias,
ideologias de botequim,
falsas crenças
baseadas em invidualismo,
procurar algum tipo de verdade
escondida num amontoado
de perversidade moral.
Tarde demais
para sorrir
e também para chorar.
Tarde demais
para que os outros,
os incrédulos,
me compreendam
de uma vez por todas.
É tarde demais.
Para tudo isso.
Tarde demais
para acreditar
no que quer que seja
e continuar seguindo em frente
porque é a única solução à vista.
Tarde demais
para tudo
e, principalmente,
para mim
que um dia acreditei
que o mundo fosse algum tipo
de terra das oportunidades.
É tarde,
muito tarde,
muito tarde mesmo.
Para mim.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O amor morreu ou fui eu que fiquei cego?


O amor, nos dias de hoje, só acontece do jeito que queremos nas telas de cinema (e ainda assim há controvérsias, se pensarmos em determinados cineastas). No geral, lá até mesmo as discussões de relação são mais verdadeiras, extrovertidas, e há respeito mútuo e não um desejo em comum de prevalecer sobre o próximo. Os beijos são mais calientes, o sexo é mais sedutor, carnal, e as amantes - quando se fazem presentes - não são cínicas ou dissimuladas como certas patricinhas que andam dando as caras em eventos sociais e capas de revistas. Existe um sentimento de espontaneidade, de que mesmo nos momentos de aflição ou revés o reencontro com a felicidade é uma questão de tempo.

"Onde foi parar o romantismo?", dizem as capas dos inúmeros best-sellers que abarrotam prateleiras de megastores sem, no entanto, fornecer nenhuma resposta digna de nota. Tudo o que rodeia o amor contemporâneo parece mesquinho, combinado antecipadamente, sem glamour ou pompa alguma. Como um programa pobre de telvisão, cheio de clichês e piadas repetidas que só fazem rir ao mais célebre dos idiotas midiáticos.

E no final o que fica é a sensação de que não somos mais úteis, de que nenhuma relação amorosa que tivermos daqui pra frente fará mais sentido e o isolamento (seja em redes sociais, seja trancado em casa, seja vivendo no limbo mesmo que esse limbo seja o seio familiar) não preencherá 1% de nossas expectativas, mas ainda assim será mais "fácil" lidar com ele do que com pessoas de carne-e-osso.

E chamarão isso de vida!

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Plágio (3): Uma ou duas coisas que sei sobre a vida*


A vida? O que é isso?
Certamente não o que dizem dela
- então o quê?
Ó meu pai que estás no céu
próximo do criador,
enviai essa infame resposta!

Morrer? Parece até irônico
mas não temo tal afronta.
Acho que já vivi até demais
porém por algum motivo,
Ele deseja a minha permanência por aqui
por mais algum tempo.

Agora esse papo de ressuscitar
e de outras vidas?
Vixe!
Isso é coisa de gente desocupada
que tem mais é que arrumar o que fazer.
Não acham, não?
Fazer o quê!
Opinião é assim mesmo: cada um com a sua.

* (Inspirado no poema "Ter Medo?", de Emily Dickinson).

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Vou morrer sem saber o segredo de Vívian


É impressionante como certas mulheres conseguem gostar de um universo que não tem nada de feminino. Veja Vívian, por exemplo. Eu a conheci numa dessas exibições de luta-livre (sabe aqueles antigos Telecatchs, com Hulk Hogan e companhia ltda? Pois então...). Ela gostava da maromba - não que isso signifique que tivesse o corpo marombado. Pelo contrário - e da sensação de poder oferecida pela brutalidade. Mesmo que essa brutalidade fosse uma mera encenação, com corpos saltando no ar, voadoras ensaiadas nos bastidores e uma sucessão de socos e pontapés que de tão ficcionais chegavam a parecer verdadeiros. E massa, extasiasada, uivava de prazer. Com Vívian no meio.

Ela gostou de mim por causa de um colega meu, tatuador, que fazia desenhos sensacionais na pele humana. Eu mesmo quase fiz um em mim, não fosse pelo meu pavor de agulhas. Ou seja, nossa história foi puro conflito de interesse.

Uma pequena lista do mundo segundo Vívian (e, acreditem, era realmente uma mulher):

1) Fumar charuto três vezes ao dia;
2) Assistir UFC na televisão;
3) Na equação músculos X cavalheirismo, a primeira opção sempre vencia;
4) Filmes preferidos: eram sempre westerns e policiais;
5) Esportes: só os radicais tipo Boogie-Jumpie, rafting e outras barras pesadas;
6) Não usava maquiagem (dizia que era coisa de mulherzinha);
7) Nunca a vi de cabelo comprido em 8 semanas de namoro;
8) Para ela, mulher sex symbol era caminhoneira.

Quer que continue? Não, tá bom né?

E, como disse na opção número 7, nosso namoro durou inacreditáveis oito semanas.

Fazer sexo com Vívian era como entrar na arena da morte. Gostava de bater e de apanhar e, se pudesse ser as duas coisas ao mesmo tempo, melhor ainda. Suas coxas volta e meia circundavam minha cabeça numa espécie de chave mortal e, às vezes, ela chegava a gritar "fatality", em referência ao game Mortal Kombat, e eu ficava mudo, estático, mero coadjuvante de toda aquela situação.

Tão incrível quanto fazer sexo com Vívian, foi a maneira como ela sumiu da minha vida. Um belo dia (lembro que era uma sexta-feira) vi uma carta em cima da minha escrivaninha, dizendo que ela partia para o Japão. Isso mesmo que você leu! Que iria fazer um curso de acupuntura ou algo do gênero. E eu, mais uma vez, fiquei ali, sem fala, sem saber se ficava puto ou agradecia a Deus pelo sumiço dessa mulher estranha.

Era gostosa ela, mas estranha!

sábado, 3 de agosto de 2013

O que foi que aconteceu, enfim?


Parece que o tempo de tudo o que era bom, de tudo o que tinha algum significado, passou (e passou faz tempo). Nada mais importa. Tudo hoje é imagem, sexo, vulgaridade, vida fácil e querer ser famoso a qualquer custo. Talento é só um detalhe que, às vezes, até atrapalha o conjunto final. Eu falei conjunto final? Deveria ter chamado de circo, pois é isso que parece.

As coisas boas, essas se tranformaram em saudade, em nostalgia. E acreditem: como é bom relembrar do tempo em que os seres humanos eram mais humanos e não essa fraude fabricada para nos convencer de que o mais importante é ser vitorioso!

Somos criados para ser competidores e não pessoas de carne e osso. Só que eles - os que adestram as pessoas - se esqueceram simplesmente de um detalhe básico: existem dois lados da moeda, o competidor que ganha e o competidor que perde. E o que eles fazem com os perdedores? Fingem que eles não existem?

Não funciona. Não desse jeito.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Será que Ele achou que eu era o escolhido?


Deus veio até mim naquela noite de sexta-feira
eu sozinho em casa amargurado
Ana Cristina me deixou
(Não, Ana Cristina não é minha namorada.
Ana Cristina é minha irmã)
e só pra completar essa informação -
que na verdade eu não queria dividir -
ela me abandonou pra morar com um junkie
de quinta categoria
de nome Damásio
(Ou era Demétrio?
Ah! Que diferença faz a essa altura do campeonato?)
Voltando ao assunto que importa:
Deus veio até mim
estava de chinelos e bermuda
e eu estranhei aquele visual
meio surfista do posto 9
meio profeta gentileza
(Sim, porque a barba ele não fazia há tempos.
Tanto que eu o confundi com Noé)
Ele - como já disse: Deus - olhou para mim
encarou de frente e disse:
"Meu filho, assim não dá mais".
Perguntei o que não dava mais
e ele disse um tudo que arrepiou até a minha alma.
Falou de meus pais
que se divorciaram no ano passado.
Falou da minha irmã
(disse que ela não volta mais)
e eu quase bati nele.
Falou das minhas últimas três ex-namoradas
(Só para constar: Lisette, Annette, Francielle).
Falou que elas estão melhor sem mim
e que eu deveria também estar melhor sem elas.
Mas eu não estou melhor.
Estou cansado
cansado e amargurado
e de saco cheio
de gente me enchendo o saco
o tempo todo.
Ele foi embora
depois de meia hora insistindo
que eu deveria seguir em frente
e em determinado momento da conversa
Ele ficou foi mesmo falando sozinho
porque eu caí no sono
(sempre caio no sono
quando a conversa é chata ou repetitiva).
Final das contas:
Ele foi embora
mas disse que vai voltar
daqui a seis meses
para uma espécie de prestação de contas
(e eu achando que só as Casas Bahia
que enchiam a minha paciência).
Hoje é domingo.

Dá pra acreditar que senti falta de Deus?
Será que Ele aparece antes dos seis meses?

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Falso cordel sem rimas para um Moisés do sertão


Foi na porta do Cine Manhatã.

Parece até brincadeira...

Mas aconteceu.

Cinco da tarde em ponto
sol a pino
rua cheia de pedestres os mais desavisados
o centro comercial abarrotado de pechincheiros
mulheres bonitas em trajes sumários
o violeiro se esgolando em estrofes atrofiadas
o menino malabarista pedindo dinheiro no sinal
o vende-tudo com suas 1001 ofertas-relâmpagos
dessas que passam todo dia no mesmo lugar
e decoram o rosto dos clientes
os termômetros dos relógios quase entrando em curto-circuito
corpos suados onde quer que se olhe.

E ele apareceu

Adhenai
o Moisés do Novo Milênio.

Míseros 1.58m de altura
sotaque nordestino carregado
vestido todo de cinza da cabeça aos pés
dizendo (melhor gritando):
"a sociedade como conhecemos
acabará dentro de dez dias.
Arrependam-se seres malévolos,
pecadores ingratos
e almas conspiradoras".

Todos arregalam seus olhos,
surpresos.

Aquele homem surgira do nada
materializara-se
bem na porta do cinema
que exibia O Dia em que a Terra parou
em quatro sessões diárias.

Primeiro pensamento:
trata-se de uma campanha de marketing
cuidadosamente elaborada.

Logo a seguir
uma nova surpresa:
o dono do estabelecimento
sai esbravejando
querendo que aquele homem suma dali imediatamente.

Que está atrapalhando os seus negócios.

Mas de onde viera?
Quem era ele?
O que fazia ali?
Maluco?
Tentando ser algum mártir?
Esquizofrênico?
Que explicação melhor responderia
àquela figura exótica
que pregava um discurso alucinado
capaz de deixar o paz e amor dos hippies no chinelo?

Ninguém sabia.

E o pouco que sabiam
já era nonsense por demais.

Ele não se fez de rogado
e abriu uma espécie de pergaminho
contendo leis a serem seguidas
por aqueles que pretendiam sobreviver
à intempérie que se aproximava.

Em poucas palavras,
trata-se do seguinte:
1) não cobiçarás teu semelhante;
2) não aniquilarás teu inimigo;
3) não se mostrarás superior em nenhum momento;
4) não mudarás tua identidade por nenhum motivo;
5) dividirás o que tem em nome da solidariedade hu...

Antes que terminasse a quinta lei
foi agredido por um popular
que lhe atirou à nuca uma garrafa de cerveja.

Pensaram tratar-se de algum político
ou interesseiro querendo especular renda junto às pessoas.

Cercado de encontro ao muro do cinema
é golpeado ferozmente
por um bando de bad boys indignados
e só é socorrido depois de três minutos
de incisivos socos e caneladas
em pontos críticos do seu corpo.

É amparado para se levantar
mas continua sua ladainha
em vez de calar-se
o que gera novas manifestações de protesto.

Um militar reformado puxa seu 38
e atira no falso profeta
mas o projétil atinge o ombro da vítima de raspão.

A gritaria começa
corre-corre pelas ruas
crianças choram
uma mulher grávida faz um escândalo
do tipo performático e cinematográfico
uma senhora idosa tentando correr
cai
e fratura a bacia.

O terror.

A cidade que já tem fama de escândalos
revive seus piores momentos.

Desde 1999 não se via tumulto igual
e os moradores mais antigos
já viam as tragédias passadas
como favas contadas
meros verbetes a serem enaltecidos
em livros de história sobre a região.

"Uma pena",
pensaram então,
"vai começar tudo outra vez".

O profeta desvencilha-se
dos que o seguram pelos braços
e agora totalmente de pé
em tom mais ríspido e direto
começa a declamar passagens bíblicas
seguidas da frase
"arremetei, pobres infieis".

A plateia debocha
ri
escancara sua gargalhada
tomates e laranjas são jogados
o violeiro
que estava perdendo ibope
pra concorrência desleal
do maluco recém-chegado
cria de improviso
uma musiqueta que expõe de forma ridícula
as intenções do novo Moisés.

Ele avança furiosamente
em direção ao artista
gritando "Judas!"
mas é novamente seguro por dois homens
e levado a uma delegacia
onde é mantido preso
por mais de uma hora
para interrogatório maciço
e a persistir em seu juízo
é trancafiado numa das celas.

Durante mais de dez horas
manifesta sua revolta
sua palavra
pedem que o solte
que o fim está próximo.

E nada.

E passam-se os dias
e as noites
e o calor aumentando em intensidade
e mais pedidos
e súplicas
e 115.00o penitências praticadas
nas formas mais distintas
sem, no entanto,
nenhuma deles surtir o efeito desejado.

Nada.

Nada.

Nada.

A prisão transforma-se numa condição incômoda.

E com a paciência do profeta
termina também o prazo estabelecido
(e avisado) por ele.

E as mudanças
começam a se mostrar mais sensíveis:
o calor arrefece
chuvas esparsas começam a surgir
em pontos localizados
ventanias
plantações são destruídas
a delegacia passa a receber ligações
sobre acidentes e tragédias
envolvendo mortos em quantidade
nunca antes vista na história da cidade.

Pela primeira vez
alguns habitantes começam a considerar
a possibilidade de Adhenai
não ser o farsante que parece.

Mas ainda assim
Ele permanece preso.

Os alimentos esasseiam
as chuvas destroem
os meios de transporte existentes
mantendo a cidade incomunicável
com outras regiões.

Os que tentam formar grupos
com a intenção de procurar ajuda
em cidades próximas
não conseguem concluir seus planos
ou quando partem não retornam.

O número de homens mortos
nas últimas 48 horas
é praticamente superior a 35%
do total de homens de toda a cidade.

As mulheres
sentindo-se desprotegidas
e acreditando-se impuras
exigem a libertação do profeta imediatamente.

Mas quando finalmente
a voz da razão fala mais alto
e ele é procurado em sua cela
já não se encontra mais lá.

Como assim?
Temos um fugitivo?
Para onde foi o tal que previu tais catástrofes?
Estará ele por trás disso?
Terá nos enganado?

Contudo,
Ele deixa uma mensagem
numa pequena folha de papel.

Uma mensagem curta:
"embora seja tarde demais, tenham fé".

Um novo desespero se abate.

O volume de água em toda a cidade aumenta.

É apenas um aperitivo para a derradeira tragédia:
ondas gigantes de mais de 30 metros de altura
tomam a cidade de assalto
levando a vida de mais de 48 mil pessoas.

A última notícia que se tem sobre o fato
é a que consta do registro histórico nacional
do dia 15 de outubro de 2007
e relata que uma moça de nome Carolina,
suposta habitante da fatídica cidade,
teria sido vista a 20 km do que sobrou da cidade
andando em farrapos
e pregando um discurso religioso.

Pelo que consta
ela estaria atrás de um homem de vestes cinzas
e cabelos até a altura dos ombros.

E mais:
carregaria nas mãos
um tipo de estandarte
com dizeres católicos.

O bibliotecários e tabeliões
funcionários do prédio
alegam que tudo não passa de uma grande parábola
sem nenhum embasamento científico ou histórico
e alguns chegaram a afirmar com 100% de certeza
que tal documento não existe
bem como tal história é totalmente falaciosa.

Para mais informações,
não há com quem entrar em contato. 
Portanto,
terá que se virar sozinho.

Todo o relato até aqui
foi baseado em depoimentos
de "supostos" sobreviventes
e nenhuma de suas identidades
foi averiguada.

Quaisquer problemas futuros
são de responsabilidade desse falso cordelista
que se apropriou de fatos de cunho duvidoso
para criar tal história.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

...e tudo por causa das nádegas de April


É inevitável: toda mulher que desfila na rua vestindo calças justas de ginástica moldando o corpo será refém dos olhos capciosos dos homens que passam. Não interessa se a sua bunda é majestosa como a da Mulher Melancia ou magra como a da Gisele Bundchen, eles olham assim mesmo. Olhar é gentileza: devoram, perseguem, aprisionam as nádegas balouçantes que trafegam tranquilamente pelas calçadas, mal sabem elas o quanto são amadas e, principalmente, cobiçadas em sua majestade. No caso de April, uma americana que se mudara para o Rio de Janeiro para fazer o seu doutorado em Marketing Cultural, era uma situação à parte. Nunca se vira - pelo menos, até hoje - nádegas americanas como aquelas. Ela fugia completamente do estereótipo das mulheres dos EUA, verdadeiras tábuas sem volume. E tudo isso graças a três horas e meia diárias de exercícios e spinning. Os homens babavam como loucos ensandecidos diante de sua presa. Não tinha namorado e não havia notícias de que fosse lésbica. Simplesmente optara pela solidão momentânea. E os homens, ao saberem disso, a cortejavam diariamente, faziam de tudo por um encontro. E ela, perversa, dizia sempre não. Quando passava com sua minissaia rosa, então, era um Deus nos acuda. O número de acidentes nas estradas nunca aumentara tanto. 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Plágio (2): Essa nova geração*


Oh cornuncópia de desajustados
falsos moralistas hipócritas de botequim,
tenho visto suas infâmias e difamações
espalhadas aos quatro ventos,
pegando mofo em becos sugismundos
fazendo parceria com ruas fétidas
e pessoas sem caráter,
tenho sabido de suas mentiras
contadas com requintes de genialidade
para suas pobres e incautas famílias
que mal sabem o que vocês fazem à noite,
tenho ouvido os gemidos eróticos
em escadarias e elevadores travados
frutos de mènages à trois
e outras práticas nada ortodoxas
de cunho sexual.
E enfim cheguei a conclusão
de que por mais porra-louca que eu seja
ainda sou mais normal do que todos vocês
pois ano de cara limpa pelas ruas
e não preciso disfarçar a voz
toda vez que preciso manifestar a minha opinião.
E pensar que um dia
não faz muito tempo
vocês - sim, vocês! -
tiveram mais escolhas mais opções na vida
do que eu.
Que desperdício!
E hoje não possuem mais
nem um resquício de realidade
no que quer que toquem, digam ou pensem.

Só uma pergunta final:
valeu a pena?

* (inspirado no poema "Saudação", de Ezra Pound).

terça-feira, 16 de julho de 2013

Minha tia Verônica

 
Minha tia Verônica é a única que levanta a minha moral quando eu não estou bem. Ela é uma mistura de Janis Joplin com Ana Cristina César e o seu humor está sempre mudando, mas mesmo assim ela é a pessoa das frases inusitadas, fortes, do apoio incondicional, daquilo que você precisa ouvir quando nada mais parece dar certo. Ontem mesmo eu estava amargurada, pensando se ainda valia a pena manter o meu relacionamento com o Arnaldinho, meu ficante há dois anos e meio, e ela veio com a seguinte pérola: "O sexo ainda está valendo a pena? Você ainda se sente plena nesse sentido? Então, fuck off o resto. Ela tinha essa mania de inserir expressões em inglês em suas conversas. Nunca estava chateada totalmente, mas just uspet. Não acreditava em namorados, do ponto de vista formal, mas em lovers. E tinha muitos. Sempre mais de um ao mesmo tempo. Gostava de French Fries, Profiteroles e Barbecue, não necessariamente nessa ordem. E só lia literatura de ficção-científica: Ray Bradbury, Arthur C. Clarke, Isaac Assimov... Certa vez lhe perguntei o porquê e ela me disse: "O fim do mundo está próximo, garota, e esses caras perceberam isso muito antes da gente. Não são simples escritores, mas profetas". E eu sempre ficava meio perturbada quando ela dizia isso, mas era só um pouquinho porque logo a seguir ela vinha com alguma palhaçada pra quebrar o clima depressivo.

Ah tia Verônica! Se não fosse a senhora eu estava perdida, sabia?

sábado, 13 de julho de 2013

Menina, cê não tá com essa bola toda não!

Você queria exclusividade em tempo integral
no momento em que eu mais estava atolado
de dívidas,
de trabalho,
de compromissos
e depois veio reclamar que eu não te dava
a atenção desejada e devida.
Foi isso mesmo que eu ouvi?
Ora faça-me o favor!
Será que é tão difícil assim entender
que o mundo não gira somente ao seu redor
e o seu umbigo não é a razão de ser
da humanidade caótica e apressada em que vivemos?
Ou será que você também perdeu mais essa aula na escola
porque estava ocupada demais,
toda cheia de si,
fazendo planos de grandeza
e se assoberbando 24 horas por dia
diante de um espelho infame
que se recusa a lhe dizer não?
Garota,
no dia em que você crescer me avisa,
quero estar presente para testemunhar
essa hecatombe global.
Pode me chamar de abusado se quiser,
mas a grande verdade
é que você perdeu o senso de ridículo
em algum momento da sua jornada voraz e solitária
rumo ao sucesso doentio e devastador
onde as almas carentes precisam de apoio
(melhor dizer: puxa-saquismo)
ininterruptamente
já que só assim
se sentem necessárias e disponíveis.
E o resto do tempo você aproveita
para pisar nos outros,
naqueles que quando você mais precisar
serão o seu bote salva-vidas
para longe de uma vida sem sentido e fugaz.
O que mais você quer?
Pedidos de desculpas não funcionam,
ajuda nunca é suficiente
pois seu estilo é caro
e difícil de bancar,
seus pré-requisitos são contraditórios e polêmicos
e quando os defende com unhas e dentes
eu tenho até medo do que pode acontecer com o resto de nós.
O que fazer então para, pelo menos, te entender?
Ainda dá tempo?
De te entender?
Porque senão pelo amor de Deus
me dá um help ou um alô (já basta)
já que eu não sou um ilusionista,
não gosto de jogos de adivinhações,
não sei ler a língua dos sinais
e sou péssimo em leitura labial
para entender esse rol de esquisitices
que você teima em chamar de língua.
E ainda diz que está na onda,
que o atrasado sou eu,
empacado no tempo e na vida.
Quero muito ajudar,
mas assim fica difícil.
Assim não há outro jeito,
senão concordar com a galera
que lhe rotulou dos piores apelidos
todos eles corruptelas da sua vaidade excessiva.
Se enxerga, menina,
e passa a ver as coisas
como elas são de verdade
e não esse espectro opaco de sentimentos vazios.
Acorda enquanto é tempo,
antes que a maré te leve pra bem longe
e você se transforme
em apenas mais uma memória de fim de semana
daquelas que volta e meia
(digamos de dez em dez anos)
retorna em reencontros de turmas de colégio
só para pichar ou lembrar das coisas loucas
que fulano, beltrano ou sicrano
falou, fez ou contou de vantagem em algum momento
e todo mundo acreditava
só pra não deixar a pessoa mal na fita.
É isso que você quer se tornar?
Uma memória barata e motivo de risada?
Um arremedo de gente
que teima em ser a número 1 pra tudo
e não suporta competições,
pois elas ameaçam a sua liberdade
e o seu ir-e-vir tresloucado?
Então, vai fundo.
Mas se não é disso que se trata,
pela última vez,
toma vergonha nessa cara andrógina
e admite pelo menos uma vez
nessa sua vida miserável
mesmo que seja a última
que você pisou na bola e feio
quando quis interferir na vida dos outros
como se tivesse esse direito
de decidir o que é bom ou ruim
para os demais.
Mas faz isso rápido
porque o relógio,
não sei se você reparou,
tá correndo contra você
e faz tempo.
Ele não para pra ninguém,
que dirá para uma patricinha
metida a besta que nem tu.
E aí?
Vai se mexer ou não?

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Conselho de mãe




"Nunca tenha medo de se apaixonar. Eu tive e olha o que foi que a vida fez comigo."

Ouvi essa frase uma única vez e nunca mais me esqueci dela. Minha mãe. Minha própria mãe. Um senhora distinta, de pouco mais de 70 anos, recém-viúva, pouca instrução. No dia do funeral de meu pai confessou: ele nunca fora o homem de sua vida. Ele foi o homem que a salvou de ser olhada na rua pelos vizinhos como a mulher encalhada, a que ninguém quis. O nome do verdadeiro amor da sua vida era Gérson. Mas não aconteceu. E não aconteceu não por culpa dos pais, que atrapalharam de todas as formas possíveis o relacionamento, ou por ele ser pobre, vagabundo, uma péssima escolha para marido. Não. Não aconteceu por medo dela. Medo de acreditar que poderia ter uma vida ao lado daquele homem. Medo por ter sido criada como a filha única, a queridinha da família, e acreditar que tinha uma dívida de gratidão com os pais para sempre. Medo porque ele quis ir além, construir sua vida em outro lugar, ao lado dela. E ela simplesmente fugiu da responsabilidade, se acovardou, repetiu o mesmo caminho de suas amigas patricinhas que viviam lhe dizendo para se afastar dele, que boa coisa não era. Moral da história: ele fora embora. Com outra. Está casado, dois filhos, empregado numa metalúrgica de renome. E ela? Ela? Ah isso não importa mais. Se teve algo que aprendeu com a vida sofrida foi a não remexer em velhas feridas. Até agora. Porque não queria que o filho cometesse o mesmo erro que ela. "Pegue a Susana e caia fora dessa cidade, meu filho!", ela me disse quase chorando, "antes que ela o destrua."

E não disse mais nada.

Voltou para a cozinha para terminar o almoço. E eu fiquei ali, estático, tentando tomar uma decisão. Só que dessa vez mais perdido do que nunca.


domingo, 7 de julho de 2013

Obra aberta


Ousei.

Fiz um livro
com todos os capítulos ímpares
em respeito a meu protagonista,
um mitológico juiz imparcial.
Pode parecer esquisito
à primeira vista
e muitos perguntarão
porque não usei os números pares,
mas o que importa para mim
não é o significado por trás disso
e sim seu conteúdo enquanto literatura.
Chamaram-me de o novo Caetano Veloso
e eu não gostei
já que acredito que personalidade
é um traço que não se empresta a ninguém.
Prefiro que me leiam
a tirarem conclusões precipitadas
e, principalmente, criarem rótulos
que simplesmente não funcionam comigo.
O que interessa,
no final das contas,
é o livro
(que, por sinal, até agora você não leu)
e que suas palavras repercutam
de alguma forma.
Pode parecer pouca coisa
pra quem está de fora
mas pra quem produz
qualquer reação
é sempre muito.

E aí?
Vai ler ou não?

terça-feira, 2 de julho de 2013

No limite

Tomei bronca de rotina. Aquela mesmice safada de sempre, tudo igual todo dia. Aquela irritante sequência acorda + escova os dentes + tomar café + tomar banho + mudar de roupa para ir trabalhar + pegar o ônibus + bater o cartão de ponto + bronca do chefe porque você chegou atrasado + relatório disso e daquilo e memorando tal e coisa + pausa para o cafezinho + voltar ao trabalho + hora do almoço com os amigos falsos que nunca gostam de rachar a conta + segundo turno do trabalho + a secretária boazuda que está dormindo com o chefe querendo lhe dar lição de moral + outra pausa para o café (essa com direito à atualização sobre as fofocas mais quentes que andaram acontecendo na última semana) + ufa! finalmente terminando o expediente + bater de novo o cartão de ponto + ônibus de volta com cheiro de suor, catinga e passageiro reclamando da vida + entrar emfim em casa e tomar outro banho e ligar a TV para saber aquilo que você já sabe que vai passar porque todo dia é a mesma coisa, portanto, novela ou futebol ou reality show ou algum babaca metido a comediante querendo fazer piadinha no horário nobre.

Então eu grito.

CHEGAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Mas ninguém ouve. Na verdade ouvem, mas deixa pra lá.  Sabe por quê? Por que eles também já não aguentam mais a rotina. Exatamente como eu. A diferença é que eles preferem continuar fingindo que está tudo bem. Eu não. Pra mim já deu. Daqui pra frente a rotina que se foda. Amanhã mesmo peço as contas naquela merda de emprego, mando a secretária do chefe se foder (coisa que, por sinal, ela já faz com o chefe mesmo!), largo o vício do cafezinho que está afetando minhas noites de sono e me livro daquele maldito coreano dono do self-service onde eu almoço todo santo dia. A única palavra que eu conheço do idioma dele é Harakiri e é o que eu gostaria de fazer com ele. Peraí... Tô falando merda. Harakiri é japonês. Putz! Vou ter de mandar ele tomar naquele lugar na minha língua mesmo e olhe lá. Do jeito que ele é burro como uma porta corre o risco de não entender, aí quem vai ficar puto sou eu, porque faço questão que ele entenda.

Antes de mais nada,

Lista obrigatória a ser seguida para mudar minha rotina:

a) Chega de atender telefonemas de atendentes de call center querendo me oferecer algum plano, assinatura, desconto etc. Danem-se! Daqui pra frente quando elas ligarem direi: "Só ouço a sua proposta se a gente marcar um motel ainda hoje".

b) Chega de TV a cabo. As mesmas séries médicas, policiais, cômicas e épicas de sempre com direito a mulheres nuas, palavrões e piadas sem nexo porque o dublador delas aqui no Brasil é um grande filho de uma puta e consegue estragar todas elas na tradução. Além do mais, na Playboy não sei porquê a nudez parece mais verdadeira e eu posso ver as fotos de graça nesses sites ilegais, internacionais e coisa e tais.

c) Receber os vizinhos carinhosamente com a frase "vão se foder e me deixem em paz!". O último que tocou a campainha queria a minha caixa de ferramentas emprestada. Vê se pode! E o dito-cujo até hoje não me devolveu o serrote que eu lhe emprestei faz mais de seis meses. É um desgraçado mesmo! Não. Vizinho agora só se trouxer um cachê ou comissão para eu ouvir o que ele tem a dizer. Do contrário...

d) Ser meu próprio patrão. Vou ouvir o conselho do meu antigo professor de administração da faculdade: "o futuro é dos autônomos, meu jovem", ele disse certa ocasião e eu, burro, não quis lhe dar ouvidos. Antes tarde do que nunca. Como já percebi que sou bom de escrita, oferecerei meus serviços de ghost writer para estudantes universitários sem o menor talento para a língua portuguesa. Faço tudo: tese, dissertação, artigo, monografia, ensaio, o que rolar tô dentro. Se o contrato for bom, faço até em outras línguas.

e) Chega de carro e de cartão de crédito. Já não bastassem todos os impostos que tenho de pagar, ainda ficar ostentando luxos que só me dão despesa. Tô fora! Daqui pra frente tudo à vista e pago adiantado, de preferência.    

Por ora tá bom. Fica como um Top Five. Se eu lembrar de mais algum, incluo como anexo (Quer apostar quanto que a lista de anexos vai ser maior do que a lista original?).

O importante é mandar a rotina pra puta-que-pariu. Não deve ser tão difícil. Não estou falando de um vício em cigarro, drogas, álcool ou sexo. Estou falando de mudar de hábitos. Será que é tão absurdo assim?

Será que essa parada vai me enlouquecer? Será que já me enlouqueceu? 

Meu Deus! Que mundo cão é esse?!

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Plágio (1): Balada dos dois pilantras do subúrbio*

Eram dois pilantras
famosos de longa data:
um chamado Aristeu
o outro apelidado Mãozinha.
Os trinta do primeira
eram pouco para explicar
tamanha vontade de roubar
Os dezessete do parceiro
foram o suficiente para lhe deixar
cicatrizes por todo o corpo.
Sem terem nada de geniais
não chegavam a ser sequer espertos
mas eram rápidos, loquazes
no pouco que sabiam fazer.
Legado não tinham
pois não chegaram a conhecer seus pais
ambos órfãos que eram.
O que sabe de ouvir falar
é que os pais de Aristeu
eram funcionários públicos exemplares
e os de Mãozinha
uma garota de programa e seu cafetão.
Talvez daí advenha o motivo pelo qual
Mãozinha não abra mão da violência
enquanto Aristeu sempre que pode
evita agressões físicas
e prefere utilizar seu discurso
empolado e trambiqueiro.
Aristeu tinha um cacoete
que aporrinhava o seu cúmplice
uma espécie de ruído feito com a boca
que fazia Mãozinha acordar assustado
várias vezes durante a noite.
O maior sonho de Mãozinho
era ser jogador do Flamengo
sonho nunca concretizado
por causa de um problema nos rins
que o impediu de fazer exercícios físicos
durante toda a sua vida.
Um mancava da perna
o outro gaguejava volta e meia
em fins de frase.
Ambos: criminosos.
Não por necessidade
como muitos que se vêem por aí
mas por vocação
por acreditarem que aquele ramo de negócios
lhes traria prestígio e grana fácil.

Moravam num cortiço
que dava até nojo chamar
de humilde residência.
Sujeira pra todos os lados
gente feia desbocada
sem nenhuma assepsia.
Quando a grana do aluguel faltava
entravam pelos fundos
por um terreno baldio emporcalhado
para que seu Ariclenes não os visse
e viesse correndo cobrar o mês.
A moradora do apartamento 403
dividia a cama com ambos
em noites intercaladas:
segunda, quarta e sexta um
terça, quinta e sábado outro
domingo de folga
que ninguém é de ferro.
Vida dura essa
mas há que se levar em consideração
que nunca faltou comida na mesa
e uma muda de roupa limpa
para esses dois marmanjos.

A fama da dupla se espalhou pela cidade
depois da quinta-feira de sangue
como ficou conhecido o dia
em que mataram o Doutro Lísias,
homem de respeito e posses
mas com um terrível vício em carteado.
Apostou demais e contra as pessoas erradas.
Deu no que deu: execução no meio da rua
na frente de toda a população.
Pensaram em sumir por uns tempos
mas "quer saber?"", pensaram,
"Que se dane. Ou a gente se impõe
ou esse povo monta nas costas da gente".
Ficaram.
E com eles nasceu o medo e a apreensão
entre os moradores do subúrbio.
Houve várias tentativas de prendê-los
e contam histórias
- histórias essas que já viraram
verdadeiras lendas urbanas -
que vários destacamentos policiais
pediram transferência para outras localidades
para não terem que enfrentar a dupla.
Se é fato ou mito?
Quem há de saber!

Porém nem tudo foram glórias
para esses dois sobreviventes:
Mãozinha chegou a perder um baço
após um troca de tiros com Frederico Sodré,
matador profissional de primeira categoria
contratado por alguns comerciantes
para dar cabo da dupla infame
e Aristeu tinha estilhaços de granada
espalhados pelo corpo
e uma orelha destruída por ácido
jogado nele por uma de suas amantes,
a voraz Angelita,
mulher de pulso forte
e que não tolerava ser usada e descartada
por homem nenhum.
Á parte pequenas derrotas,
transformaram-se em lenda muito facilmente
(até pela falta de assunto que havia no local na época).

Foram quinze anos
de crimes quase cinematográficos
escapadas sublimes
chantagens extraordinárias
e subornos capazes de levar ao ódio
chefes de polícia que não admitiam
- sob hipótese alguma -
que algum agente da corporação
se submetesse a liberá-los
em troca de qualquer quantia.
Mas a farra um dia tinha que acabar.
Como todos os grandes artistas que se prezem
por trás de todo artífice do crime
há um clímax devastador e impiedoso.
E com Aristeu e Mãozinha
não foi diferente.
E a derrota deles teve nome:
Astrogildo Humberto Peçanha,
mais conhecido pelos amigos
como Nonô Peçanha:
um homem simples
de atitudes serenas
nunca mexeu com ninguém na cidade
e o pouco que se sabia sobre ele
era que possuía uma loja de ferragens no centro
e era casado com Idalina,
mulher rigorosamente religiosa
(palavra de alguns populares)
que quando a viam na rua
estava dentro de algum templo.

Por trás de toda essa pacificidade
havia um segredo:
se havia algo que Nonô Peçanha não tolerava
era que não mexessem naquilo que era seu.
"Desse ao respeito, se quiser o mesmo para ti",
sempre foi seu lema de cabeceira.
Até que Aristeu e Mãozinha
entraram em sua vida
(quer dizer, na cama de sua esposa).
Nem ela sobreviveu a fúria de Nonô:
foi encontrada enforcada
no ventilador de teto da sala.
A caçada aos homens "que se desonraram sua mulher",
como repetidamente falou às autoridades,
durou um ano e meio.
Um ano e meio de rastreamentos
e pistas em falsos
e gente que atrapalhou sua missão
fornecendo informações erradas.
Contudo, nada abateu Nonô Peçanha
e ele persistiu e persistiu
e orou a Deus
e orou
e orou
e orou com cada vez mais força e vontade
e exigiu que o criador
colocasse em suas mãos
aqueles duas criaturas desnaturadas.
E assim se fez.

Naquela sexta-feira,
13 de Abril,
exatamente às quatro horas da tarde,
Nonô Peçanha encontrou Aristeu e Mãozinha
tomando todas num barzinho caindo aos pedaços
lá pros lados de Madureira
reduto do samba e da folia.
Naquela tarde o som dos tamborins
deu lugar aos disparos da 45 de Nonô
que ferozmente atravessou os corpos
dos dois "difamadores da moral alheia"
(Pelo que ficou registrado nos jornais,
essas teriam sido as últimas palavras
proferidas por Peçanha antes de atirar
contra a dupla de criminosos).
Alguns comentam que ele próprio
teria feito o enterro da dupla.
Nunca mais os corpos de Aristeu e Mãozinha
foram visto pelos moradores da região.


A fama persiste?
Mas do que isso:
gerou um roteiro de cinema
cujo filme chegou a concorrer
ao Festival de Sundance.
Fala-se que a moradora do 403
teve um filho de um dos dois
(só não se sabe quem)
e que ele, aos 15 anos,
teria fugido do subúrbio
acompanhado de uma menina da mesma idade
de nome Carolina.
Tem quem fale até numa nova dupla,
a Bonnie & Clyde do subúrbio.
Será verdade
ou tudo não passa de mero boato?
Aliás,
não será toda essa história
um grande e incoerente boato?
Vá saber.
O tempo dirá.
Cabe ao narrador somente
relatar os fatos.
Já a interpretação fiel
e a veracidade dos mesmos...


* (Livremente inspirada em "Balada das duas mocinhas de Botafogo", de Vinicius de Moraes).